Tava eu preparando café e ouvindo uma playlist de musiquinhas leves, quando entra na caixinha de som a música Avec moi, do Froid com participação da Liniker.
Você ta lá escutando um rapzinho e de repente entram umas palavras em francês.
Não perdi a oportunidade de mandar pro boy, mas fiquei ali pensando que essa música ilustra um fenômeno linguístico que eu conheço desde o mestrado, o code switching — alternância de código. É basicamente o fato de um falante mudar de uma língua (ou variedade) pra outra, pra atingir efeitos de sentido na interlocução. O termo também é utilizado para analisar contextos maiores, por exemplo quando se quer entender por que uma comunidade bilíngue utiliza uma língua e não outra em determinados contextos.
Eu me interesso bastante pelas situações de code switching de indivíduos porque ela retrata algo que sempre aconteceu na minha casa, em que moram duas pessoas falantes de inglês e português: a gente usa termos em inglês aqui e ali pra mobilizar um sentido mais específico (”a pessoa tá lá completamente high das ideia…”), ou pra fazer referência a algum meme da internet ( ”CORONA VIRUS!”
). Até conhecer o fenômeno do code switching eu achava que a gente era cocky, petulante, metido. Aliás, tem um vídeo do Porta dos Fundos que eu gosto muito que também é exemplo de code-switching e ilustra essa percepção:
O personagem do Gregório Duvivier insiste em alternar para uma pronúncia com características do inglês quando menciona nomes de pessoas famosas (anglófonas ou não kkkkk). Aqui tá bem claro que o code switching pode, sim, resultar em julgamento de valor negativo, justamente porque a língua estrangeira é mobilizada pra veicular sentidos para além do seu conteúdo linguístico e é justamente o inglês que está sendo posto pra jogo. Esse cara não tá usando banalmente a língua estrangeira, ele mobiliza seu conhecimento da pronúncia da da língua estrangeira para veicular seu acesso a espaços americanos e europeus do mundo anglófono, que em nossa sociedade constituem espaços de privilégio — seu domínio do inglês não é uma aquisição por imersão, como se sua comunidade de berço fosse falante dessa língua; seu domínio do inglês depende de pagar por um curso de língua em uma escola estrangeira muito cara que ele faz questão de mencionar, a British. Nesse contexto, o code switching é petulante; mas o fenômeno de code switching não é inerentemente petulante.
Em contextos em que convivem diglossias, línguas de herança, falantes provindos de culturas diversas, o code switching não necessariamente vai vir com esse pacote mobilizado pelo inglês e sua condição de língua de globalização e imperialismo. Uma coisa legal é pensar em comunidades bastante multilíngues, por exemplo da África do Sul. Você sabia que a África do Sul tem onze idiomas oficiais? Dá uma olhada na listinha que o ChatGPT gerou pra mim:
A África do Sul é um país extremamente diversificado linguisticamente. Aqui estão algumas das línguas mais faladas, listadas em ordem aproximada de número de falantes:1. IsiZulu: É a língua mais falada na África do Sul, com uma grande população de falantes, principalmente na província de KwaZulu-Natal.
2. IsiXhosa: É a segunda língua mais falada no país, predominantemente encontrada na província do Cabo Oriental.
3. Afrikaans: Uma língua derivada do holandês, é amplamente falada em toda a África do Sul, especialmente entre os descendentes dos colonos holandeses e dos povos indígenas africanos.
4. Inglês: Embora não seja uma língua nativa para a maioria dos sul-africanos, o inglês é amplamente usado para comunicação oficial, negócios e educação.
5. Sepedi: Também conhecido como pedi ou northern Sotho, é falado principalmente na província de Limpopo.
6. Setswana: É a língua principal da província do Noroeste e também é falada em algumas partes de Gauteng e do Cabo Norte.
7. Sesotho: É a língua oficial do Lesoto e também é falada em algumas partes da África do Sul, principalmente na província do Estado Livre.
8. Xitsonga: É falado principalmente na província de Mpumalanga e em algumas partes de Limpopo.
9. Siswati: É falado principalmente na província de Mpumalanga e em algumas partes de Gauteng.
10. Tshivenda: É falado principalmente na província de Limpopo.
11. IsiNdebele: É falado principalmente na província de Mpumalanga, embora também haja comunidades na província de Gauteng.
Essa lista abrange as principais línguas faladas na África do Sul, mas há muitas outras línguas e dialetos presentes no país devido à sua rica diversidade cultural.
Isso é só pra você ter uma ideia da diversidade linguística em países que não tiveram uma política ostensiva de monolinguismo, como é o caso do Brasil, que teve genocídio indígena, separação intencional de pessoas escravizadas vindas de mesma origem, e ainda leis proibindo o uso de línguas diferentes do português no nosso território (sim, to falando de você mesmo, Sr. Marquês de Pombal com seu “Diretório dos Índios”).
No fim das contas, não é lá muito lógico pressupor que as pessoas sendo bilíngues se comuniquem exclusivamente em uma língua só. Isso aí é mais um tijolinho do mito de que as pessoas são naturalmente monolíngues, quando na verdade a tendência mais natural é o contrário, o multilinguismo.
O fenômeno do code switching é bastante estudado pela sociolinguística porque ele transparece as tensões simbólicas de culturas em contato através de línguas em contato. Se você quer uma definição, aqui está a que eu coloquei na minha dissertação, em 2012.
Chamamos de mudança de código a alternância completa de uma língua para outra dentro de um enunciado (ou trecho de escrita). Esta alternância pode acontecer por inserção de fórmulas na outra língua ou, ainda, entre sentenças, o que exige acomodação gramatical de uma língua a outra. Essa alternância geralmente é marcada por fatores extra-linguísticos, mas pode também prescindir de motivação, casos em que os interlocutores geralmente são colegas pertencentes a um mesmo grupo, numa situação informal em que eles avaliam positivamente suas identidades nesse contexto.
No contexto da música do Froid com a Liniker, o que me chamou atenção foi que aparecia o francês, e não o inglês, mais frequente hoje em dia né. Que sentidos será que esse emprego do francês mobiliza?
🎶Eu tive um déjà vu, mon chéri, voulez-vous
Lingerie, coq au vin, ahn
Desliga o abajur, film noir avec moi
Sem sutiã, très bien, ahn
Ah, te servir um buffet, dar um bouquet
Vem couché, vem, avec moi, ah
Vem pra matinê, ma petit, mon bijou
Oh, ne me quitte pas, eu dou um jeito (eu dou um jeito)
Aonde tiver dor, dou beijo 🎶
Se a gente olhar com mais calma, vai ver que entram palavrinhas francesas já incorporadas no português brasileiro, algumas que até já têm grafia aportuguesada (abajur = abat-jour; sutiã = soutien; matinê = matinée; buquê = bouquet), algumas que mantêm até hoje a grafia francófona (déjà vu, lingerie, buffet, film noir, coq au vin). Essas todas são substantivos, que entram na letra pra compôr o cenário desse possível futuro encontro.
Além dessas, há palavras que fazem parte de expressões francesas popularizadas (mon chéri, ma petit, mon bijou, très bien) e referências de cultura pop (ne me quitte pas, voulez-vous couchez avec moi).
Mas nenhuma dessas inserções é gratuita, ao contrário do que uma primeira impressão poderia sugerir. As expressões francesas entram na composição em português se enquadrando perfeitamente nas construções, construindo o significado, e não apenas por sua sonoridade francesa. E estão todas ligadas ao campo da sedução, que é um valor vulgarmente associado à cultura francesa.
Opa, tá aí o efeito de sentido. Esse code switching está a serviço de construir um clima de romance com esse par romântico. Se eu fosse você, aproveitava o bonde e mandava pra alguém também. Chega no ouvidinho e manda: “Avec nós dois, Paris fica torta”🎶😉🍑
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