“Ele tá literalmente cagando e andando pra você”; “o Brasil literalmente lavou a alma”; “Tá tão frio que eu to literalmente congelando”. Todas essas frases são motivo de chacota por aí porque entram no rol dos casos em que o termo “literalmente” estaria sendo usado de forma errada. Essas frases circulam em páginas como o perfil de twitter @erradoliteral e tantas outras que colecionam prints de usuários incautos. Por que elas estariam erradas? Oras, porque “literalmente” vem da etimologia de littera – que em latim significava “letras” – e tem acepções de dicionário que sugerem uma interpretação literal, letra a letra.
Mas talvez tanta semelhança não seja mera coincidência. Estudos recentes mostram que o significado de “literalmente” já não é mais tão literal assim. Esse termo teria uma função linguística não de indicar a interpretação literal, mas de indicar uma intensificação do que se está falando. Nesse caso, interpretamos cada uma dessas frases de um jeito meio frouxo, fazendo as manobras metafóricas e culturais necessárias: “cagar e andar” acaba significando um desinteresse; “o Brasil lavar a alma” significa uma redenção; e “congelar” é passar frio mesmo. Mas, acompanhadas do literalmente, essas expressões ganham um reforço – como se houve muito desinteresse, uma grande redenção ou realmente muito frio!
Perceba que essas interpretações que eu estou narrando não são nenhuma novidade pra você. Você já sabia exatamente qual era a intenção de quem fala essas frases quando ouviu elas pela primeira vez. E não é só por boa vontade sua que isso acontece! Acontece porque você, falante de português brasileiro, está jogando o jogo da língua. Enquanto falante, você só é capaz de interpretar o que está previsto nas regras de funcionamento da nossa língua e se você interpreta essas sentenças de maneira não literal é porque de fato a língua está trabalhando com um significado de “literalmente” que não é literal. E aqui estamos falando de como seu cérebro funciona quando você se comunica: se você fala uma língua, é porque ele armazenou algumas (muitas!) regras que determinam como você produz sentenças em português e como as interpreta. E aprender uma língua nova passa por esse processo de aprender como produzir e interpretar frases que seguem regras diferentes das que você aprendeu quando criança. Para cada língua, um conjunto diferente de regras!
O que os pesquisadores têm percebido é que é cada vez maior a tendência das pessoas de usar o “literalmente” com expressões metafóricas como essas aí, que simplesmente não podem ser interpretadas ao pé da letra. Os linguistas registram casos como “Hoje to literalmente dormindo” e “O bicho literalmente pegou na Vila Belmiro” em bancos de dados de natureza variada – desde registros coloquiais até matérias jornalísticas.
Ao que parece, o termo “literalmente” está passando por uma mudança linguística e já adicionou o significado de intensificação ao significado literal. Isso é muito comum e está presente em palavras que você nem se dá conta. Pra te deixar um exemplo, a palavra “músculo” veio de uma mudança como essa: no latim significava “ratinho” (muscŭlus) e passou a se referir a uma parte do corpo pela semelhança com a forma e o movimento do bichinho, quando você tensiona um músculo.
Mudança linguística é uma coisa muito natural nas línguas, e inevitável. As coisas vão mudando lentamente e por um tempo ocorre a convivência entre a acepção nova e a acepção velha. Por conta disso ainda usamos o significado literal, como nesse caso de um vídeogame que torna as pessoas minúsculas: “Jogo brasileiro deixa o ser humano pequeno diante da natureza, literalmente”.
Mas, se você é capaz de interpretar tanto a leitura literal quanto a leitura intensificadora, é porque as duas interpretações já estão previstas nas regras armazenadas no seu cérebro.
Então, dizer que existem usos errados do “literalmente” é uma fake news de um tipo bem conhecido na linguística. Está ligado à ideia de que existem jeitos de falar bons e ruins e ignora o fato de que as línguas mudam. Esse, sim, é fato em questão: já está registrado e descrito usos de “literalmente” com a interpretação intensificadora. Não tem nada de errado com isso porque, além de tudo, nosso cérebro também tem a malemolência de transitar entre as possibilidades e ainda usar a ambiguidade pra fazer graça.
Pra saber mais:
A etimologia de “músculo”: https://www.etymonline.com/search?q=muscle
DEOSTI, A., GISSKE, J., DIOGO, J., BEVILÁQUA, K., NEGRI, L., & BERNSDORF, S. Análise do processo de mudança semântica dos advérbios literalmente e buchstäblich a partir do modelo semântico-cognitivo de Eve Sweetser. Signo, 41(71), 2016. 101-113. https://doi.org/10.17058/signo.v41i71.6919

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