*Texto publicado no facebook em 31 de janeiro de 2023.
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Semana passada participei de uma aula com estudantes de 1o ano de licenciatura em Educação do campo. Uma estudante, tão logo descobriu minha área de especialidade, veio com o comentário "quando a gente for professor tem que corrigir os alunos pra falarem certo né.. como faz?". Eu já sou preparada pra esses momentos e faço todo um movimento socrático pra pessoa chegar à conclusão de que corrigir a fala de alguém não serve pra nada e ainda pode resultar em mecanismos inibidores.
O assunto é tão feijão com arroz na profissão que já essa semana me pula na timeline um caso que é exatamente isso: gente corrigindo o jeito que os outros falam. Foi o caso da Larissa do BBB sendo corrigida pelo seu amigo Cara de Sapato (risos). O vídeo tá na mão, graças ao meu amigo linguista especialista em big brother, Vitor Hochsprung, e você vê logo abaixo. A Larissa fala que as provas passam a ter "menas pessoas" e o Sapato corrige ela na lata "menos!".
https://www.facebook.com/decontoluana/videos/986312062341639
O raso dessa conversa é bem simples e a Bruna mandou a letra de cara: variação linguística. Pessoas falam de maneiras diferentes e tá tudo bem. Tem até lógica por trás do modo como elas ~~erram. Aliás, "menas" já é um uso bem reconhecido no português e é reflexo de um processo de regularização que toma "muitos" como analogia: se é "muitas pessoas", então também deve ter "menas pessoas". Concordância de gênero e número é um processo bastante consistente no português (brasileiro ainda mais) e não flexionar a palavra que vem antes do nome é que é o ponto fora da curva.
Mas o que me interessa nesse vídeo é outra coisa. Sapato é amigo de Larissa e se dá o direito de corrigir ela, achando que tá fazendo o melhor papel solidário porque "eu pensei que tu queria". Tá pressuposto que todo mundo quer falar ~~correto e que é bom corrigir as pessoas. Isso me lembra o caso de uma aluna de Sociolinguística que confessou que corrigia o namorado no whatsapp. Meu conselho pra ela foi apenas: "não seja essa pessoa!".
O que faz a gente naturalizar a correção da fala dos outros e inclusive ver com olhos condescendentes
é que há um sistema de manutenção do status da norma padrão (o falar ~~bonito) que é ideológico. Uma ideologia linguística da norma padrão, que é alimentada pelas mídias televisivas, pelo sistema educacional, por editoras e acordos internacionais. Não é pouca coisa, não. Ela faz todo mundo achar bonito e necessário falar assim e não assado. O "assim" foi construído historicamente, por um processo de construção de legitimidade para os falares de camadas mais abastadas da população e de construção de estigma sobre os falares periféricos.
E como toda ideologia, funciona como aquela metáfora do Foster Wallace que dizia "Isto é água".
Há dois peixes jovens nadando ao longo de um rio, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que pisca para eles e diz, “Bom dia, rapazes, como está a água?”. E os dois peixes jovens continuam nadando por um tempo, e então um deles olha pro outro e diz, “Que diabos é água?”.
Estamos imersos e nem percebemos. Sapato está imerso e não sabe disso. Por isso não questiona a necessidade de falar certo e camaradamente passa adiante o que julga ser uma preocupação compartilhada com a amiga.
Agora o salve desse textão é pra engrandecer o empoderamento linguístico da Larissa. Que coisa mais linda é a moça dizendo pra ele "não! não! não!", denunciando que o comportamento que ela tá recebendo não deve ser naturalizado. E daí vem o relato de como as constantes correções, de várias pessoas da casa, têm feito ela se sentir inferior. "Mexe isso comigo" significa: inibem seu comportamento!
A capacidade linguística da Lari está fora de questão, porque ela é articulada e consegue expôr sua opinião e análise das situações da casa. Nem passa por planta, porque ela FALA, se manifesta. E se ocorrem alguns desvios de Norma, a gente deveria se perguntar se essa Norma era mesmo necessária nesses contextos, porque ela é uma falante de alto grau de escolaridade capaz de transitar por situações que demandam comportamentos de fala mais monitorados.
A implicância dos colegas e do público não vai calar essa guria, graçaszádeusa! Mas em outras situações comunicativas, outras pessoas não teriam o mesmo empoderamento -- especialmente pessoas de baixo nível de escolaridade que acessam a uma escola do campo já carregadas de máculas de preconceito.
Estamos imersos mas podemos dizer "Isto é água. Isto é água.". Mas isso só é possível depois de passarmos por um processo de tomada de consciência.
Em tempo, veja o post do Vitor no instagram sobre esse vídeo e preconceito linguístico.
https://www.instagram.com/p/CoFSz0nu4v6/
E veja o texto completo do Foster Wallace:
https://www.posfacio.com.br/.../isto-e-agua-david-foster.../

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